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Vovó Donalda

  • admfelipedaiello
  • 3 de jun.
  • 8 min de leitura

       Logo no primeiro olhar ela chama a atenção, com cabelos brancos e passos ligeiros ela chega ao estacionamento do clube, sem hesitar ela entra num jipe Cherokee último modelo e para surpresa na arrancada, cantando pneus, mostra quem é a senhora do pedaço. Como eu participo do grupo de ginastica para a terceira idade era momento de aplacar minha curiosidade e descobrir os seus segredos.

         -- Sou viúva há poucos anos, mas não esqueci os comandos do Hans, esposo e parceiro em muitas aventuras, --ela precisava falar aproveitando a curiosidade de um companheiro de atividades. --Muitos passeios eram para locais onde as maravilhas da natureza estão escondidas por estradas rurais sem pavimentação, perdidas e plenas de buracos traiçoeiros , disfarçadas por poeira que cega o motorista, o pior eram os lamaçais encontrados quando chovia muito. O modelo atual um 4x4, diesel com tração nas 4 rodas possui câmbios que permitem ultrapassar qualquer obstáculo. Hans além de ser excelente motorista, com paciência infinita, insistia para eu tomar o volante e tentar mostrar se  eu aprendera as suas lições. Por segurança podes ver que os para-choques são reforçados e temos nas laterais reforços adicionais, o que nos dá segurança quando saímos das estradas colidindo com arvores e acostamentos. —Além de uma boa prosa ela gostavas de exibir as suas qualidades.

         --No trânsito caótico da nossa cidade, meu tanque de guerra proporciona inúmeras vantagens, quando algum apressado tenta ultrapassagem perigosa ou quando eu por cautela, ao sinal amarelo do farol próximo de faixa de pedestres, eu reduzo a marcha. Buzinam  desesperados querendo usar o limite do amarelo. Como tenho proteção metálica tanto na traseira quanto na frente, com dedo indicador para cima mais um sorriso sardônico, eu desarmo qualquer insolente. Aprendi truques para jogar qualquer atrevido para fora da estrada ou para usar o seu freio de modo desesperado  enquanto eu com o meu super  jipe em segundos deixo metros de distância do impertinente, bem sentada em posição elevada como uma rainha.—ela terminava a explanação  com uma risada suave  ao final e com um abraço.

         Sempre com seus cabelos brancos bem penteados , rosto com poucas rugas. Além de usar roupas que destacavam a sua silhueta, sempre risonha exalava elevado astral, todo o nosso encontro era com beijos e abraços fraternais. Quando ela chegava,  eu já sabia o que perguntar.

          -- Depois  da passagem do Hans, como ele me ensinou, continuei a jornada. A viagem não tem final, o viajante talvez, mas sonhos e projetos sempre terão continuação, alguém sempre prega o bastão de comando e vái em frente pois o ciclo da vida não termina.-- Ela explicava as peripécias  bem vividas com o seu esposo.

          -- Hans além me deixar em boas condições financeiras, ensinou-me a cuidar dos ativos, o que permite que eu continue a viajar, revendo os locais onde passamos momentos difíceis de esquecer , éramos mais do que  marido e mulher , mas sim cumplices de um projeto de vida.—Por um instante eu percebi lágrimas furtivas que ela logo controlou.

          -- Meus dois filhos tem vida independente, não dependem de mim e não pedem e não querem conselhos, pertencem a uma geração diferente da minha. No início queriam saber para onde eu ia, agora mal perguntam quando eu volto. Meus netos, com esses eu mantenho contato desde crianças pois eu os acompanhava nas aulas de natação e depois nas escolas de equitação, pois cavalos era uma das paixões de Hans. – Era o momento de ela mostrar no seu smartfone as últimas fotos de duas lindas meninas e de um pequeno garoto. Pelo visto ela mantinha contato  pelo whats com os seus netos , mas  as meninas estavam mais perto do seu coração.—São bonitas as minhas netas! Eu acompanhei o crescimento delas, ano a ano, centímetro por centímetro pois era a responsável por levar e trazer  nos treinos necessários, quando no carro trocávamos confidencias e observações.

          -- Em pequenas viagens, aproveitando feriados e fins de semana , mesmo nas férias ela eram as convidadas de honra, pois Hans adorava contar histórias , falar dos eventos  e embates ali ocorridos. Era um professor disponível , sempre concluindo com uma súmula ou fabula, lição  que elas nunca vão esquecer. — Agora que está sem o seu Hans fica claro que ela pretendia ter  novas companheiras em futuras viagens.

           ---Cuido muito da minha saúde, além de manter um esquema de exercícios físicos por toda a semana. Tenho médico geriatra de raízes nipônicas, que não permite nenhum deslize, exigindo  exames de rotinas semestrais.—Ela tinha prazer em mostrar no celular, uma sumula dos exames que fizera. Por sinal todos mostravam valores dentro da faixa considerada adequada para pessoas da terceira idade. Como uma bíblia ela planeja com antecedência  a sua vida

           Durante quase um mês, ela esteve ausente. Ninguém sabia do seu paradeiro , mas a minha intuição não deixava dúvidas. Era só esperar.

           -- Foi algo de oportunidade, viagem que Hans planejara estava em oferta na minha agencia de viagens; mal deu tempo de preparar a documentação, a mala amiga e companheira, não esquecendo dos remédios e das pílulas salvadoras. Tudo começa na Tailândia, para a praia de Phuket, com mergulhos interessantes  para ir a seguir para o Laos e para  o Camboja com os encantos de Angor Vat. Foi uma nova experiência, algo fora dos roteiros turísticos tradicionais maneira de descobrir os mistérios e as aventuras em locais , onde guerras sanguinárias haviam ocorrido.

            Mas não é perigoso ultrapassar fronteiras nem sempre amistosas? –Era a pergunta inicial que eu podia fazer.—Éramos um grupo pequeno, mas já era roteiro tradicional que funciona de modo regular , as estradas mesmo precárias estão limpas de eventuais minas abandonadas e os guias com experiência sabem como contornar eventuais contratempos. O poder dos dólares elimina qualquer burocracia. Os governos locais incentivam o turismo, pois necessitam de divisas.—Enquanto  ela falava eu pensava na loucura de um safari naquela zona onde as tropas de Khemer Vermelho ocuparam por tantos anos.

        --Enquanto descíamos o rio Mekong, numa jangada de bambus, quase um rafting local pelas cachoeiras, com a água molhando quase tudo, mesmo com os impermeáveis recebidos, nossa adrenalina aumenta, pois nossa segurança dependia da habilidade do piloto. Descendo o Mekong, apreciando as florestas e os pássaros em cores nunca vistas, nosso destino era chegar numa praia onde nossos veículos aguardavam. -- ela toma folego para explicar o que aconteceu.

         -- Quando chegamos no embarcadouro, primeira a saltar com minha mochila e com pés descalços, logo percebi algo anormal. Da selva vinham bramidos intensos e as pessoas meio confusas corriam desesperadas. O meu instinto me fez disparar subindo a rampa de acesso em busca  de refúgio, pois mesmo no idioma local as palavras escutadas indicavam  perigo de morte. Percebi que um bando de elefantes selvagens, por alguma razão, enlouquecidos, seguiam a trilha que levava ao porto. Era momento de acelerar os passos, largar mochila e correr para a árvore mais próxima, Ainda bem que estava com bom estado atlético, mas não sei como consegui pulando galhos alcançar pouso seguro, como uma macaca medrosa. A manada por alguma razão desviou por atalho não atingindo os veículos e nem as bancadas dos vendedores perto do Mekong. Mesmo assim não sai de santuário, mesmo com toda a algazarra a terminar. Foi uma boa experiencia, enquanto recebia atenção pelas feridas e cortes que exigiam limpezas, cuidados e antissépticos.—Acredito ter sido o pior episódio das tuas viagens.—Era o que eu podia dizer.

         --Com as tuas perguntas recordo outros incidentes. Na polinésia francesa , em Bora-Bora a excursão era para alimentar tubarões de recifes com lulas presas a espetos de metal com 40 centímetros de extensão. Bora- Bora, considerada o atol perfeito inclusive com o seu vulcão e com cabanas para hospedes dispostas ao longo da lagoa central é algo para guardar em memória eterna. No barco  com fundo de vidro, fragmentos de um mundo colorido de corais e de pequenos peixes era aperitivo do que seria a nossa experiência alimentar. Na pequena enseada, uma corda fora disposta definindo os domínios dos contentores, os turistas com suas máscaras de mergulho e espetos na mão estavam no lado praia, enquanto os galhas pretos, circulavam pelo lado do mar. Parecia um espetáculo programado, circulando em fila, tubarões de recifes, não mais do que um metro e meio de comprimento  de modo ordenado iam abocanhando os petiscos ofertados. Só que com o movimento das ondas a corda estendida bem como a minha posição se alternava. De repente eu era a invasora  com meio corpo no domínio dos tubarões Não sei quando tempo durou a intrusão quanto um esqualo esbarrou na minha máscara. O seu olhar frio,  sem expressão é algo que a minha memória não esquece.—Santo Deus! Que experiencia! Estou tremendo só de saber que uma pequena mordida , mesmo experimental deixa  marcas que exigem  mais de 100 pontos nas restaurações. O que  mais eu podia dizer.

        --São esses detalhes que dão sabor  as nossas viagens. Posso contar episódios de entrar em grutas subterrâneas  sujeitas a inundações repentinas, quanto precisamos rastejar o pelo solo e subir por colunas onde  não se pode trançar as pernas e não ter nada de barriga sob pena de ficar entalado. Pela minha a experiencia, obrigatório dispor de máscaras de oxigênio , pois no interior o nível de oxigênio cai muito o que traz sequelas pela aspiração dos micro-organismos existentes em ar rarefeito. O estudo da espeleologia em grutas é para profissionais, algo que nunca deixaria as minhas netas fazer. Cada aventura tem seu o preço, mas o meu conhecimento e a prudência sabem onde eu posso ir, ainda  mais quanto viajar com as netas. Por enquanto o Felipe é muito jovem , terá que esperar a sua vez.

        Quando ela saiu, recordei personagem de Wald Disney,  uma velhinha simpática, sempre alegre, agitada e ajudando os da família num tradicional Ford preto. Numa próxima oportunidade eu teria muitas perguntas  e maior curiosidade ainda.

         -- Foi muito bom te encontrar pois és um bom ouvinte, sempre atencioso nos nossos encontros,  Depois do episódio no Laos, meus filhos num complô não querem que eu viagens mais para lugares  perdidos ou perigosos. Viagens com as netas só depois de conhecer os roteiros, ficam proibidas qualquer transgressão. No entanto eles não tem ideia do que eu pretendo e posso fazer, pois eu arrumei a minha vida podendo viajar sem pedir para alguém cuidar da casa, de jardins ou de animais de estimação. Depois da morte  do Hans, vendi a nossa mansão, fazendo leilão de todos os objetos que não cabiam no meu novo apartamento ou que não me interessavam. No meu novo lar tenho tudo para uma pessoa  ter o melhor conforto não dependendo de ninguém, Fechando a porta, não preciso de nenhum auxiliar. Com a idade  precisamos adotar a política do desapego, pois na partida não levamos nada dos nossos pertences. É lição que deixo para as minhas netas.—Mas qual o mistério que vais me contar.—Eu estava curioso.

           -- Um dos sonhos de Hans era conhecer a Antarctica e as bases polares ali instaladas , inclusive as do Brasil que foram renovadas após incêndio. Vou ter de viajar só, pois ninguém em sã consciência quer se meter num inferno gelado. Para evitar problemas escolhi a melhor suíte, pagando adiantado para evitar contratempos. Como a viagem ao atravessar  o estreito de Drake  pode enfrenta tempestades terríveis, quando o barco tem as escotilhas cerradas e os passageiros  são amarrados nas camas, com a traseira exposta para aplicações de injeções contra mareo, os passageiros devem apresentar atestado de boa capacitação física , o que não é problema , pois posso fazer em Ushuaia na Argentina treinamento para enfrentar as iras dos ventos austrais que não gostam de abelhudos, obtendo certificado de capacitação, para a questão da idade de não passar de 70 anos na data da partida, fui obrigada a usar de malandragens e muitos dólares para poder embarcar em fevereiro  do próximo ano , mesmo que talvez não suporte a viagem. Mas devo realizar o sonho de Hans , mesmo sabendo que eu posso ser presa por alterar documentos.--Mas o teu planejamento prevê ter um bom advogado era o que eu dizer no momento.

               --Depois dessa odisseia, pois tenho tempo  e dinheiro para contratar  treinador físico para me preparar para uma  meia maratona, eu vou atuar como uma vovó que vai levar as netas para conhecer o mundo em viagens de navios, talvez  nessa época o Felipe consiga autorização para viajar com uma vô bem conservadora.—Sem  saber o que dizer, bastava ver  a sua aparência de tranquila guerreira, para ter certeza que não seria a sua última vitória.

      Foi uma surpresa  a sua passagem desse mundo, Leda como passageira foi  única a morrer quando o carro dirigido por um jovem imprudente foi lançado e esmagado pelo acostamento, o seu lado como passageira. Quantos projetos ficam arquivados. Mas o certo, mesmo numa nova dimensão ela continua espalhando notícias com sorriso sempre acolhedor, seguido de forte abraço.

 
 
 

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